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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Retratos. Amores quebrados [ou Sobre um cretino V]]

Ele a observava dormir. Ali, deitada de bruços, com o lençol cobrindo-lhe apenas até os quadris, ela parecia em paz. O homem observou-a detalhadamente, seus olhos notando-lhe como a pele era clara (clara como marfim) e como a cor contrastava com vários sinais espalhados pelo corpo. Os cabelos escuros e curtos cobriam-lhe parte do rosto, a boca carnuda e rosada estava ligeiramente entreaberta, deixando uma respiração ritmada e tranquila sair. O homem esqueceu por um momento o tipo de situação em que estavam. Estendeu a mão para tocá-la apenas com as pontas dos dedos. Num primeiro momento, ela pareceu se incomodar, antes de relaxar sob o tato dele, sem acordar.

Sabia que ela não conseguiria evitá-lo por muito tempo. E não, não era presunção pensar aquilo. Haviam tentado aquilo antes, não? Mas sempre, irremediavelmente, um sempre acabava voltando para o outro. Não importava para onde o destino a levasse, ela sempre voltaria para ele. Sempre.

/Liv.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Retratos. Boemia. [ou Sobre um cretino IV]

Ele deu uma risada abafada e arrogante, o sorriso faiscando para a garota semi-nua à sua frente. Pegou um copo de uísque e virou um gole, deitando a cabeça para o lado para vê-la de um ângulo melhor.
- Me sinto especialmente atraído por strippers. Toda aquela história de “veja, mas não toque” me deixa especialmente muito excitado. – respondeu com seu tom mais natural e sem nenhum pudor.

Ela arregalou os olhos cor-de-mel, falseando uma surpresa. Abriu um pouco mais as pernas, ladeando-o com elas. Ele olhou e sentiu um arrepio subir na espinha.
- Ó. Devo me sentir lisonjeada por pertencer à categoria?

- Claro que sim! – o homem respondeu como se fosse óbvio, colocando outra nota de cem doláres na liga que ela tinha na perna. Que pernas, meu pai... – Strippers são meu feitiche desde que eu tenho 13 anos.

- Eu realmente imagino que você deveria ser mais um pobre e inocente garoto de 13 anos que olhava revistas pornôs e tocava uma no banheiro da escola. - a mulher se inclinou, segurando seu queixo delicadamente, com um sorriso zombeteiro no rosto.

- Isso foi aos 12. – ele sorriu automaticamente.

/ Liv.

Retratos. Sussurros.

Foi o som de um acorde. Violento. O rapaz ergueu a cabeça, olhando na direção da pesada porta de madeira e levantou-se da poltrona à frente da lareira de seu quarto. O que quer que estivesse fazendo não havia mais importância. Quieto, o rapaz se levantou e seguiu para fora do quarto. O violoncelo havia sido quebrado há anos... podia ainda se lembrar da briga.

Ao chegar no corredor, seus pés descalços e pálidos sentiram a frieza do piso de mármore. Havia uma fresta de luz... saindo da porta mais à frente. O quarto dela. O segredo dela. Uma fascinação, uma curiosidade, e também um desejo antigo remoeu-se dentro dele, insinuando-se quase polidamente... impeliram-no para frente.

Parou perto da porta, com uma das mãos apoiadas no vão da porta, ele inclinou-se apenas levemente para ver pela pequena abertura, de onde o som pesado e melodioso do violoncelo saía. Ele a viu. De olhos fechados, ela movimentava o arco sobre as cordas, os dedos rápidos e delicados produzindo as notas, e havia um leve contorcionismo no corpo dela, uma leve balançada como se a música lhe atingisse os músculos. Estava sentada, alvíssima, os cabelos longos e loiros pregados pelo suor em seus ombros, o vestido azul escuro mal lhe cobrindo as pernas. O violoncelo era negro e novo. Mais selvagem que o antigo.

A mulher abriu os olhos e encarou o rapaz diretamente. Os olhos azul cobalto também eram selvagens, reveladores, por um momento. Ele manteve-se quieto atrás da porta. O sorriso doce abriu-se em seus lábios. Um gesto tão incomum vindo dela. Aqueceu-o. Reconheceu o verdadeiro gênio da irmã naquele sorriso... era como um pequeno murmúrio, um “isso fica entre nós”. E com um leve aceno respeitoso, um sorriso quase imperceptível, ele assentiu, afastando-se dali.

/ Liv.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Retratos. Desinocência.

Os dias irresponsáveis haviam chegado ao fim. Foi isso que ela pensou ao encarar o próprio reflexo no espelho da penteadeira vitoriana. Seu rosto havia se tornado mais sério assim tão subitamente? Assim... tão adulto? Os olhos escuros que se encaravam haviam perdido algum brilho qualquer, que estava ligado à sua tenra mocidade. Os cabelos curtos, castanho-escuros, meio desalinhados haviam sido cortados rigidamente retos à linha do queixo, e embora normalmente cabelos curtos deixem o rosto mais jovial, indicavam, no caso dela, o total oposto. Os dias irresponsáveis haviam chegado ao fim. Era preciso apenas uma leve tensão para mostrar as linhas de estresse que haviam se formado em seu rosto ainda, ironicamente, jovem.

Ela, aquela pequena garota, assumia um cargo invejado, mas temido por qualquer um: gerenciar a família inteira. Se haviam prosperado por 400 anos é porque alguém, alguém sempre havia assumido a função de líder.
Dezoito anos e ela já estava preparada? Parecia pouco tempo, mas estava. A morte do próprio pai nas costas (ou seria melhor dizer mãos?) e o infortúnio do avô (preso e sem alma) haviam-na preparado. As duas figuras que até então lhe causaram mais medo não sobreviveram ao ímpeto dela. Era mesmo uma pena que as coisas tenham chegado a esse ponto, ela pensou ao deslizar os dedos numa escova ali por cima da superfície de madeira.

Liv.

Retratos. Junkie.

Ele se encostou por alguns instantes na parede de pedra, fechando os olhos e respirando profundamente. Sua aparência era lastimável: estava meio suado, trazia um corte no canto dos lábios que ainda estava manchado de sangue, assim como o nariz também estava. Mas isso não o incomodava. A briga com aquele outro parecia ter sido há séculos ao invés de alguns minutos. Será que havia realmente acontecido naquela noite? Não teria sido há uma semana?

Absorveu o cheiro da rua junto com o ar e ficou, durante alguns segundos, escutando o barulho confuso e desconexo – era assim que tudo parecia para ele no momento – de conversas distantes, dos sons de música abafados, dos movimentos dos bares (a única coisa que funcionava mesmo em tempo de guerra); não que realmente soubesse de onde o barulho estava vindo.


Tateou o bolso do sobretudo para pegar uma carteira de cigarros. Ao fazê-lo, pegou um, colocou-o na boca e acendeu-o. Deu uma tragada e quando afastou o cigarro para deixar a fumaça sair pelos lábios entreabertos, abriu os olhos novamente. Eles se detiveram no cigarro, na ponta que queimava... O alaranjado da brasa parecia mais vivo... Ele franziu a testa, aproximando o cigarro do rosto; admirava a maneira como o filtro era consumido pela brasa para se tornar... cinzas. Sorriu estúpida e lentamente... Fogo. Adorava fogo. A cor vívida do tabaco queimando era... simplesmente... incrivelmente....bela.

Onde ela estava?

O homem sentiu o olhar desviar do cigarro para a rua. Sua visão estava ligeiramente borrada; piscava em flashes repentinos de cores... elas piscavam onde quer que ele olhasse... como se seu cérebro estivesse mais sensível às suas diferentes tonalidades e brilho... e movimentos. E, na verdade, estava.

Algo dourado brilhou à distância. Levando o cigarro aos lábios novamente, o homem deu um impulso para frente para se desencostar da parede. E então, andou na direção do tal brilho dourado.

Lá estava ela, ofuscando as poucas pessoas à sua volta na rua, a melhor vagabunda que ele fudera – e que pretendia continuar fudendo. Os olhos azuis dele se fixaram nela (a garota tinha o rosto virado para o outro lado como se falasse com alguém) e ignoraram todo o resto. Continuou se aproximando – um barulho incerto e abafado indicava música ali perto. Ela fez um movimento com o cabelo, e ele pensou ter visto todos os fios se moverem... Os fios loiros do cabelo dela brilhavam intensamente, mas não pareceram nada perto do aspecto ofuscante do rosto dela quando a mulher se virou. Ele a chamara? Nem se tocara disso.

Parou de andar a alguns passos dela, olhando-a curiosamente. Como nunca reparara naquela beleza? Cegava. A pele branca parecia mais branca; o batom vermelho o fazia imaginar que a boca dela sangrava – a cor quase o agredia, e despertou nele a vontade de morder aqueles lábios. Sorriu. Os olhos azuis dela brilhavam tentando feri-lo ou era só impressão? O sorriso da mulher faiscou antes de se tornar... o quê? Preocupação? Confusão? Algo do tipo. Estava frio ou a ardência que o homem sentia no rosto era por causa de outra coisa... Quê? Ela havia dito que ele se cortara? Que engraçado... uma puta que se importa.

Liv.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sobre um cretino III.

O cigarro nos lábios já queimava há alguns minutos. A fumaça que seus lábios deixaram escapar subiu lentamente e se condensou no ar parado à sua frente. Por trás dela, olhos castanhos com um brilho aguçado de pura malícia, e ele sorria um sorriso afiado, safado, completa e terrivelmente despudorado. Ele encarou a garçonete à sua frente. Seus olhos desceram para observar os seios dela que saltavam da blusa. Uma pena que não estivessem à mostra. Encarou-a novamente.
- Você não gostaria de fazer um extra?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sobre um cretino II

Ela sentiu as lágrimas chegarem aos olhos, enquanto sentia uma espécie de sufoco apertar-lhe o peito, tirar-lhe o ar. O descaso das palavras dele ressoava em seu ouvido como se ele estivesse logo ao seu lado, sussurrando em seu ouvido. A garota notou que suas mãos tremiam e então segurou a alça da mala com força, como se isso a impedisse de tremer. Ela mexeu a cabeça com rigor, tentando afastar as lágrimas dos olhos. Rangeu os dentes.
Todos diziam que ela tinha o coração de pedra. Mas não. Ela não tinha: tinha um coração de vidro. Parecia firme à primeira vista, mas alguns socos e ele estilhaçava. E cortava tudo o que houvesse ao redor.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sobre um cretino.

Ele ergueu o olhar para ela. Parecia irritado, irônico, desapontado. Era um olhar de quem se cansara de se importar. Ela conseguira deixá-lo insensível: já não se preocupava mais se iria machucá-la (quando ele tentou de tudo para saber como evitar isso), ou com os sentimentos dela. Não se importava mais se ela o amava ou não, ou se ele não a correspondia. A garota conseguira com ele ligasse o "Foda-se" para valer.
O rapaz a viu se distanciando e continuou parado, de pé. Levou o cigarro aos lábios e abaixou a cabeça enquanto o acendia. Só então, levantou o olhar novamente para a loira que descia as escadas, arrastando a mala.
- Cuidado para não cair da escada. - ele disse com descaso, ao expirar a fumaça pelos lábios, erguendo ligeiramente o queixo. Seu olhar exibia uma completa indiferença. O rapaz não se deu ao trabalho de ficar ali para ouvir uma resposta. Simplesmente, virou as costas e saiu dali. Ela queria que ele agisse como um filho da puta? Conseguira. Ele seria um maldito filho da puta então.